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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Senhor Palha


Era uma vez, há muitos e muitos anos atrás, é claro, porque as melhores histórias sempre se passam há muitos e muitos anos, um homem chamado Senhor Palha. Ele não tinha casa, nem mulher, nem filhos.
Para dizer a verdade, só tinha a roupa do corpo, pois o Senhor Palha não tinha sorte. Era tão pobre que mal tinha o que comer e era magrinho como um fiapo de palha. Por isso é que as pessoas o chamavam de Senhor Palha. Todo dia o Senhor Palha ia ao templo pedir à Deusa da Fortuna para melhorar sua sorte, e nada acontecia. Até que um dia, ele ouviu uma voz sussurrar:
"A primeira coisa que você tocar quando sair do templo lhe trará grande fortuna".
O Senhor Palha levou um susto. Esfregou os olhos, olhou em volta, mas viu que estava bem acordado e o templo estava vazio. Mesmo assim, saiu pensando:
"Eu sonhei ou foi a Deusa da Fortuna que falou comigo?"
Na dúvida, correu para fora do templo, ao encontro da sorte. Mas na pressa, o pobre Senhor Palha tropeçou nos degraus e foi rolando aos trambolhões até o final da escada, onde caiu na terra. Ao se por de pé, ajeitou as roupas e percebeu que tinha alguma coisa na mão. Era um fiapo de palha.
"Bom", pensou ele, "um fiapo de palha não vale nada, mas, se a Deusa da Fortuna quis que eu pegasse, é melhor guardar".
E lá foi ele, segurando o fiapo de palha. Pouco depois apareceu uma libélula zumbindo em volta da cabeça dele. Tentou espantá-la, mas não adiantou. A libélula zumbia loucamente ao redor da cabeça dele.
"Muito bem", pensou ele. "Se não quer ir embora, fique comigo."
Apanhou a libélula e amarrou o fiapo de palha no rabinho dela. Ficou parecendo uma pequena pipa, e ele continuou descendo a rua com a libélula no fiapo. Logo encontrou uma florista com o filhinho, a caminho do mercado, onde iam vender flores. Vinham de muito longe. O menino estava cansado, suado, e a poeira lhe trazia lágrimas aos olhos. Mas quando o menino viu a libélula zumbindo amarrada no fiapo de palha, seu rostinho se animou.
"Mãe, me dá uma libélula?" - pediu. "Por favor!"
"Bom", pensou o Senhor Palha, " a Deusa da Fortuna me disse que o fiapo de palha traria sorte, mas esse garotinho está tão cansado, tão suado, que pode ficar mais feliz com um presentinho".
E deu a libélula no fiapo para o garoto.
"É muita bondade sua" - disse a florista. "Não tenho nada para lhe dar em troca, além de uma rosa. Aceita?"
O Senhor Palha agradeceu e continuou seu caminho, levando a rosa. Andou mais um pouco e viu um jovem sentado num toco de árvore, segurando a cabeça entre as mãos. Parecia tão infeliz que o Senhor Palha lhe perguntou o que havia acontecido.
"Vou pedir minha namorada em casamento hoje à noite" - queixou-se o rapaz. "Mas sou tão pobre que não tenho nada para dar a ela".
"Bom, também sou pobre" - disse o Senhor Palha. "Não tenho nada de valor, mas se quiser dar a ela esta rosa, é sua".

O rosto do rapaz se abriu num sorriso ao ver esplêndida rosa. "Fique com essas três laranjas, por favor" - disse o jovem. "É só o que posso dar em troca." O Senhor Palha seguiu andando, carregando três suculentas laranjas. Logo encontrou um mascate, ofegante.
"Estou puxando a carrocinha o dia inteiro e estou com tanta sede que acho que vou desmaiar. Preciso de um gole de água".
"Acho que não tem nem um poço por aqui" - disse o Senhor Palha. "Mas se quiser pode chupar estas três laranjas."
O mascate ficou tão grato que pegou um rolo da mais fina seda que havia na carroça e deu-o ao Senhor Palha, dizendo: "O senhor é muito bondoso. Por favor, aceite esta seda em troca". E o Senhor Palha mais uma vez seguiu pela rua, com o rolo de seda debaixo do braço. Não deu dez passos e viu passar uma princesa numa carruagem. Tinha um olhar preocupado, mas sua expressão logo se alegrou ao ver o Senhor Palha.
"Onde arrumou essa seda?" - gritou ela. "É justamente o que estou procurando. Hoje é aniversário de meu pai e quero dar um quimono real para ele."
" Bom, já que é aniversário dele, tenho prazer em lhe dar essa seda" - disse o Senhor Palha. A princesa mal podia acreditar em tamanha sorte. "O senhor é muito generoso" - disse sorrindo.
"Por favor, aceite esta jóia em troca". A carruagem se afastou, deixando o Senhor Palha segurando a jóia de inestimável valor refulgindo à luz do sol.
"Muito bem", pensou ele, "Comecei com um fiapo de palha que não valia nada e agora tenho uma jóia. Acho que está bom."
Levou a jóia ao mercado, vendeu-a e, com o dinheiro, comprou uma plantação de arroz. Trabalhou muito, arou, semeou, colheu, e a cada ano a plantação produzia mais arroz.
Em pouco tempo, o Senhor Palha ficou rico. Mas a riqueza não o modificou. Sempre ofereceu arroz aos que tinham fome e ajudava a todos que o procuravam. Diziam que sua sorte tinha começado com um fiapo de palha, mas quem sabe foi com a generosidade?

Conto Japonês

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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

O Sábio

Numa cidadezinha modesta havia um grande sábio.

A ele toda a população recorria em busca de ensinamentos

e orientação para a vida.

Havia,também, um menino que não aceitava a autoridade do

sábio e vivia articulando uma forma de

desmoralizá-lo perante a opinião pública.

Depois de muito pensar achou um jeito:

prenderia um pássaro em suas mãos. Depois perguntaria ao sábio se

o pássaro está morto ou vivo.

Se o sábio dissesse que ele está morto, o menino soltaria o pássaro

se dissesse que ele está vivo, ele mataria a ave,

assim o sábio não acertaria nunca! E assim fez.

Chegou perto do sábio e perguntou:

- Sábio, o senhor que sabe tudo, responda:

este pássaro que está nas minhas mãos está vivo ou está morto?

O sábio olhou serena e fixamente em seus olhos e respondeu:

- Meu filho, o destino do pássaro está nas suas mãos.

Assim a gente conclui: a sua vida também está nas suas mãos.

Faça o melhor que puder por ela.

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domingo, 9 de dezembro de 2007

Um conto de Natal


Eu estava em São Francisco, a poucos dias do Natal. As lojas já começavam a ficar lotadas e multidões esperavam impacientemente pelos ônibus e bondes no fim da tarde. Quase todo mundo carregava pilhas de pacotes e o cansaço era tanto, que eu comecei a me perguntar se os inúmeros amigos e parentes mereciam mesmo aqueles presentes e tanto sacrifício. Esse não era bem o espírito de Natal que eu desejava.

Finalmente fui literalmente empurrada para dentro de um bonde superlotado e a idéia de ficar ali como sardinha em lata até chegar em casa foi se tornando insuportável. O que eu não daria por um lugar sentada!

À medida que algumas pessoas foram descendo, consegui respirar melhor e comecei a notar os outros passageiros. Com o canto do olho, vi um menino pequeno, de pele escura - não poderia ter mais de seis anos - puxando a manga de uma mulher e perguntando: "Quer se sentar?" Ele a levou até o assento vago mais próximo e partiu em busca de outra pessoa cansada. Assim que um cobiçado lugar surgia, ele rapidamente se enfiava em meio àquela multidão para procurar mais uma mulher carregada de pacotes e a levava até o assento.

Finalmente, quando senti um puxão em minha própria manga, já estava completamente fascinada pelo menino. Ele me pegou pela mão e com um sorriso do qual jamais vou me esquecer disse: "Venha comigo." Mal tive tempo de agradecer, pois ele já partia em busca de mais uma necessitada.

Os passageiros do bonde, que em geral viajavam olhando para a frente e evitando os olhares dos vizinhos, começaram a trocar sorrisos. Uma mulher comentou comigo o cansaço que sentia, e três pessoas se abaixaram ao mesmo tempo para apanhar um pacote que caíra no chão. Em pouco tempo, as pessoas conversavam. Aquele menininho havia realmente mudado alguma coisa - todos nós nos sentíamos envolvidos num sutil sentimento de aconchego e o resto do percurso foi puro prazer.

Não percebi o menino descer. Quando olhei, ele não estava mais ali. Quando cheguei ao meu ponto, saltei do bonde pisando nas nuvens e desejei sinceramente ao motorista "Feliz Natal". Pela primeira vez percebi como as casas da minha rua estavam lindamente iluminadas e pensei em reunir os vizinhos para um chá antes do fim do ano. Eu me sentia de bem com o mundo, feliz com os presentes que comprara e com a alegria que eles dariam.

E de repente, o Natal deixou de ser uma estressante festa de consumo para adquirir seu verdadeiro sentido. Mais uma vez era um menino que, com seu gesto de amor, anunciava nossa verdadeira vocação.

Livro: Histórias Interessantes
Autor: Assis Almeida

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